
Hoje o Estado desfila. Puxa a tropa pra Esplanada, hasteia a bandeira, toca o hino e pede — não, exige — que você bata continência. É o único dia do ano em que o espólio vira feriado e a obediência vira virtude cívica. A avenida se enche de fardas, tanques e blindados, e todo mundo é convocado a olhar aquilo com o peito estufado de orgulho. Repare bem na cena: uma coluna marchando em formação perfeita, ninguém sai da linha, e lá no alto do palanque alguém observa, de mão erguida, conferindo se a massa desfila direitinho.
Chamam de Independência. Independência de quê?
Em 1822 não houve povo rasgando corrente à beira do Ipiranga. Houve um príncipe português decidindo que o Brasil trocaria de dono sem trocar de senhor. O Grito foi um contrato entre elites: a Coroa saiu pela porta da frente e a mesma casta ficou com as chaves da casa — e do cofre. Você não foi convidado pra assinar. Você foi herdado junto com a mobília.
Duzentos anos depois, o roteiro é o mesmo — só mudaram os figurinos.
O político que te assalta na segunda é o mesmo que na quinta você tem que saudar como autoridade. A farda que definha por falta de munição e verba ainda serve pra uma função nobre: desfilar. E os Poderes disputam o espólio feito herdeiros impacientes — o Legislativo com a mão dentro do orçamento, o Judiciário esticando o braço sobre tudo, o Executivo comprando voto com emenda. O “independentes e harmônicos entre si” da Constituição virou nota de rodapé. Harmônicos eles são, sim — mas em cima de você, não entre si.
O anarquista não celebra a “pátria” porque sabe o que a palavra esconde. Pátria é o nome bonito que o Estado dá à fronteira dentro da qual ele detém o monopólio de te obrigar: obrigar a pagar, a servir, a obedecer, a marchar. Não há independência enquanto existir alguém autorizado por lei a viver do seu trabalho sem te pedir licença. Trocar o rei de Lisboa pelo presidente de Brasília não foi libertação. Foi troca de gerência — a placa na porta mudou, o aluguel continua sendo cobrado de você.
E é por isso que o desfile é tão sincero, no fundo. Ele mostra exatamente o que a relação sempre foi: uma massa em formação, andando na cadência que mandarem, sob o olhar de quem está no palanque. A única mentira é o nome que dão a isso. Chamam de festa da liberdade o dia em que a obediência é ensaiada em praça pública.
Então, neste 7 de Setembro, quando pedirem sua continência, siga o trajeto dela com os olhos. Ela não sobe pra você. Nunca subiu. Vai pro palanque, pro cargo, pra bandeira — pra tudo que foi feito pra te lembrar do seu lugar na fila.
A verdadeira independência não desfila.
Ela desobedece.
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