Todo mundo jura que o outro lado é que é corrupto. A esquerda aponta a direita, a direita aponta a esquerda, e o brasileiro assiste ao pingue-pongue achando que é torcida de futebol. Só que os números contam outra história — bem mais desconfortável pra todo mundo.

Existe um número que ninguém dos dois lados quer encarar de frente.

No Índice de Percepção da Corrupção, o Brasil tirou 35 de 100 em 2025. Cento e sétimo lugar entre 182 países. Segunda pior nota da nossa história no índice. E, de quebra, colados abaixo da média mundial há mais de dez anos.

“Ah, mas isso é culpa do governo atual.” Foi o que disseram do anterior. E do anterior do anterior. Aí está a piada que não tem graça nenhuma: desde 2012, essa nota não sai do lugar. Sobe um ponto, cai um ponto, empaca. Trocaram presidente, trocaram partido, trocaram discurso, trocaram bandeira no palanque — e o ponteiro da corrupção continuou exatamente onde estava, como se nada tivesse acontecido. Porque, do ponto de vista da máquina, nada aconteceu mesmo.

E é aí que mora a pergunta que ninguém faz: se a corrupção não muda quando o governo muda… será mesmo que o problema é o governo?

O erro de mirar no ladrão e ignorar o cofre aberto

O brasileiro foi treinado pra tratar corrupção como problema de caráter. “Elegeram bandido.” “Faltou gente honesta.” “Da próxima vez a gente vota certo.” E a cada eleição a gente aposta as fichas num novo salvador de índole ilibada, esperando que dessa vez seja diferente.

Nunca é.

Não é porque não existe gente honesta. É porque você pode botar o sujeito mais honesto do planeta na frente de um cofre aberto, sem câmera, sem tranca, e com o poder de decidir quem fiscaliza o próprio cofre — e a matemática do incentivo vai trabalhar contra ele todo santo dia. A honestidade individual não vence um sistema desenhado pra premiar o desvio.

O problema nunca foi só quem rouba. É a estrutura que deixa tanto ao alcance da mão, com tão pouca consequência. Quanto mais dinheiro passa pela mão do Estado, quanto mais decisão depende de um carimbo, quanto mais poder se concentra em quem não presta contas — mais caro fica esse carimbo. Corrupção não é o vírus. É o sintoma de um corpo grande demais, com defesa de menos.

Por que os dois lados adoram esse teatro

Repara na genialidade do arranjo: enquanto você briga com o vizinho pra saber se o ladrão é de esquerda ou de direita, os dois lados continuam operando o mesmo cofre. A briga de torcida é o melhor presente que o sistema podia ganhar — porque mantém a sua atenção no jogador e longe das regras do jogo.

Trocar o time no poder e esperar o fim da corrupção é como trocar o motorista bêbado por outro bêbado e achar que o problema era o volante. O problema é que qualquer um que senta ali recebe as chaves de um carro sem freio.

O que os 35 pontos realmente dizem

Aquela nota travada há uma década não é sinal de que “falta o político certo”. É a prova documentada de que o desenho não muda — e, enquanto ele não mudar, o resultado não muda, vote você em quem votar.

Não adianta rezar por um homem honesto pra tomar conta de um sistema desonesto. O caminho é o contrário: encolher o cofre, espalhar o poder, e tirar da mão de qualquer autoridade a chave que hoje ela usa pra se blindar.

Enquanto isso não acontecer, a gente vai continuar nesse ritual de quatro em quatro anos: eleger a esperança, enterrar a esperança, e culpar o outro lado.

35 pontos. Há uma década. Não é o governo. É a máquina.

— O Araponga


Fontes (linke no seu post):