Neste 7 de Setembro o Brasil comemora a independência dividido em dois comícios — um em Brasília, outro na Paulista, cada um jurando defender a democracia do outro. Eu proponho uma terceira pergunta, que não cabe em nenhum dos dois palcos: independência de quê, exatamente? E pra quem?

Todo 7 de Setembro é a mesma cena, só mudam os figurinos.

Este ano o país celebra a Independência partido ao meio: de um lado, o desfile oficial na Esplanada; do outro, o ato na Avenida Paulista. Dois palcos, duas multidões, duas bandeiras iguais servindo de estandarte pra causas que se odeiam. E o detalhe tragicômico: os dois lados dizem estar defendendo a democracia — um do outro.

Cada tribo aponta o dedo e grita que o adversário é a ameaça. E, no fervor de acusar o inimigo, ninguém para pra fazer a única pergunta que interessa neste feriado: independência de quê? E, principalmente, pra quem?

A independência que comemoramos é a errada

Em 1822 a gente trocou de dono. Deixamos de responder a uma coroa do outro lado do Atlântico pra responder a uma máquina de poder aqui dentro. Trocamos o rei distante pelo Leviatã de casa — mais perto, mais eficiente, e com muito mais apetite.

“Independência” virou sinônimo de “nação livre de outra nação”. Mas essa é a versão fácil, a que cabe no desfile. A pergunta libertária é mais incômoda: de que adianta o país ser independente se o cidadão dentro dele não é? De que serve não responder a Portugal, se você responde ao fisco, ao cartório, à fila, ao carimbo, à autorização, à licença pra quase tudo que quer fazer da própria vida?

Trocar de senhor não é se libertar. É mudar a etiqueta da coleira.

“Ainda temos democracia?” é a pergunta errada

É a pergunta da moda, e os dois lados a usam como arma. Mas ela tem um vício de origem: trata democracia como se fosse só contar votos. Como se um país fosse livre pelo simples fato de ir às urnas.

Não é. Democracia que se resume a voto é só a maioria decidindo até onde vai a liberdade da minoria — e, no fim, da vida de cada um. Você pode votar religiosamente, de quatro em quatro anos, e ainda assim viver sob um poder que decide o que você pode plantar, vender, dizer, ganhar e guardar. Isso tem nome, mas “liberdade” não é.

A pergunta que de fato mede se um povo é livre não é “quantos votam?”. É: o que, neste país, está fora do alcance do poder? O que nem a maioria, nem o presidente, nem o tribunal, nem o Congresso pode tocar? Quanto da sua vida ainda é sua, inegociável, blindada contra qualquer um que ganhe a próxima eleição?

Quanto menor for a resposta, menos livre você é — não importa quantos comícios encham a Paulista ou a Esplanada.

Por que os dois lados fogem dessa pergunta

Simples: porque os dois querem a mesma máquina — só discordam sobre quem vai segurar a alavanca.

Um lado quer o poder grande pra fazer o “bem” à sua maneira. O outro quer o poder grande pra fazer o “bem” à maneira dele. Nenhum dos dois quer o poder pequeno. Nenhum dos dois sobe no palanque pra dizer “vou tirar poder das minhas próprias mãos”. Por isso a briga é tão feroz e tão eterna: não é sobre libertar você — é sobre quem fica com a chave do seu cadeado.

E enquanto você escolhe torcida, os dois concordam no essencial: a coleira fica. Só se discute a cor.

A independência que ainda falta

Então, neste 7 de Setembro, enquanto os dois lados disputam quem é o verdadeiro patriota, fica a provocação do Araponga:

A independência que importa não é a de 1822. É a que ainda não veio — a do indivíduo diante do Estado, seja ele qual for, esteja quem estiver no comando.

Amo a pátria. É justamente por isso que não confio em nenhum dos dois palanques que hoje se enrolam na bandeira dela.

Feliz Independência. Que um dia ela seja de verdade — e sua.

— O Araponga


Contexto (linke a fonte, se citar os atos):